segunda-feira, 13 de setembro de 2010

A Inveja Desenterrada do Diário de Helena Palma


Jorge Magalhães
de Oliveira

Dia 15 de agosto

Levanto, então, o meu sorriso mais verdadeiro. Tento. Porém já não consigo. O que me vem aos lábios é apenas uma fenda sarcástica que enveluda meus pensamentos e imperializa a minha falsidade. A grande coroa de Rainha do submundo deveria vir para mim que sou falsa mesmo em frente ao espelho. Que descasco em noites úmidas. Que escrevo mentiras para satisfazer meu ego. Que desenho o destino alheio.
A minha mão encontra as costas daquela que me abraça com tanta ternura, e repete o gesto feito em mim pelas mãos amáveis dela. Só que o único desejo daquela mão é afastá-la como uma infectada. Nojenta. Pútrida. Irritante. Monopolizadora. Arrogante.
Ah, mas se ela soubesse do que tenho guardado dentro de mim e do tamanho de minha paciência perceberia que meus dentes nunca estiveram tão amarelos. Perceber é o problema dela. Não percebe. NUNCA. Continua burra acreditando que a amamos, que realmente gostamos dela. Que simplesmente nunca lhe passou pela cabeça que todos os sorrisos a ela direcionados já foram, pelo menos uma vez, falsos por todas as pessoas que a circundam.
Como é ingênua, a ponto de parecer idiota, esta menina. Se joga em cima de garotos como se os lábios alheios fossem carne que não come a anos, e a saliva fosse água doce que lhe saceia a sede de morte. Como é ingênua por não perceber que é usada. Como é ingênua por não perceber que ele me ama. E não a ela.
E, por mais que eu tente localizá-la neste mundo podre que é a terra, ela se mantem radiante e estúpida. O sol da manhã nunca dorme dentro de seu pequeno corpo. Corpo horroroso. Cabelo Seboso. Espinhas inflamadas. Engorda sua louca desvairada! Que ainda falta para você atingir o meu conceito de acabada. Come este docinho que fiz especialmente para você, e que infelizmente não tive a decência de colocar cianureto na receita. Engole este pedaço de gordura e fique gorda. Gorda e mais gorda.
Por incrível que pareça eu gosto dela. Desta imbecil. Gosto de verdade. Só que o saco está enchendo de ar e prestes a estourar. Só que o saco não para de encher. E o saco não para de chiar.
Então, melhor cortar este mal pela raiz de seu cabelo, raspando tua cabeça até ficar lisa e pelada, brilhando como bola de bilhar. Enfiar-lhe goela abaixo líquidos com álcool e forçar-te uma cirrose. Fuma este bagulho e fique viciada. Grite de dor enquanto espanco sua cara. Seu lindo rosto de cavalo com expressão azeda e vazia.
E ainda gosto de você. Minha nossa. Como sou falsa.
Que felicidade.

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Helena Palma, uma de minhas personagens mais queridas. Tão repugnante que a amo do fundo do meu coração. Ela veio bem a calhar neste momento de raiva, a vejo como um lado meu que não aparece muito, só que quando aparece sempre é uma surpresa. No início este excerto não falava sobre inveja, porque não a sentia. Só que vi no que escrevi um desabafo de Helena sobre sua inveja. Talvez a personagem invejada dê as caras um dia desses. Seu nome veio de uma professora de balé de minha irmã, porém são personalidades completamente diferentes. Espero que Helena e sua visão medonha de mundo consigam voltar a vez a luz com este blog.

Diálogo interno com a morte.


Quem Gosta
Do gosto
Gostoso do
Sangue da
Meia
Noite
?

Ceifador,
Oh,
Ceifador.

Tirai Dela
Da amada
Da amorosa
O gosto
Gostoso do
Sangue da
Meia
Noite

Ceifador,
Oh,
Ceifador.

Tira Dela
Da carne
Dela
O gosto
Do amargo
Tenebroso
Doce da
Meia
Noite

Eu sei,
Ceifador,
Eu sei.

Que agora
As luzes
Não verei
Mais
Nunca
Mais
Nunca
Mais

Por quê,
Ceifador,
Por quê?

Tive de
Matá-la
Para
Sobreviver
a impiedosa
fome da
meia
noite
?

Oh, não

Eu a matei

Oh, não

Eu a comi

Oh, não

Eu sobrevivi

Oh, sim

Para depois morrer de frio

sábado, 11 de setembro de 2010

Insanidades Escritas (1)


Vida em um Parágrafo
Jorge Magalhães de Oliveira

Ah! Querido leitor, nunca houve pessoa com final tão feliz quanto o de Daniela Pedroso Araújo. Era estéril e não teve filhos seus, não esperava por isso, porém aceitou bem o seu destino. Casou-se com 25 anos e fez todas as bodas que sua vida permitiu. Morreu aos 95 por envelhecimento enquanto dormia; Viu seu Marido, João Carlos Silva Araújo, Morrer de câncer uns seis anos antes de sua partida para o expresso final. Formou-se professora de educação infantil e ensino fundamental concluindo o curso superior de pedagogia aos 22 anos na Universidade de São Paulo e obteve uma oferta de emprego maravilhosa para lecionar uma sala de 35 alunos na sua cidade natal na escola onde havia estudado ainda criança. Viajou, então, em dezembro para a Bahia, morar com seus pais e exercer sua profissão. Seu pai conseguiu recebê-la de braços abertos em casa, porém morreu dois meses depois. No dia da morte de Antonio Pedroso conheceu João que era filho de um amigo do falecido. Três anos mais tarde o casório aconteceu na Igreja São Jorge dos Ilhéus. Ensinou 525 crianças das mais diversas cores e condições financeiras no Grupo Escolar do Eduardo da Avenida Princesa Isabel da cidade de Ilhéus. Numa noite seu marido, então Radialista da rádio "Gabriela FM", lhe falou da oferta de emprego que havia ganho para trabalhar na cidade de São Paulo junto com a grande oportunidade de estudar em uma universidade de sua escolha com as despesas pagas pela empresa contratante. Daniela amava sua cidade, só que viu alí a única oportunidade que seu marido teria de conseguir um diploma de ensino superior. E, posso contar a vocês, que Daniela não poderia ter feito escolha mais sábia, pois era, sem dúvida alguma, a única chance que seu amor teria. Ela se lembrou que ainda adolescente, por volta dos 15 anos 3 meses 17 dias e 17 horas de idade, de quando comunicou aos seus pais a sua intenção de fazer o ensino médio e, posteriormente, uma faculdade na cidade de São Paulo. Seus pais só haviam lhe dito duas coisas naquela época. "Se acabar o seu dinheiro não peça mais." e "Se você não passar na faculdade nem se importe de voltar." e como nós já sabemos, ela passou e voltou. Viu então o que precisava fazer por seu marido. Arrumaram as malas, trancaram a casa, deram a chave para a mãe de Daniela e pegaram o primeiro avião para a cidade da garoa. A vida não foi fácil nos primeiros meses, tiveram de se acostumar com mudança constante de temperatura, as ofensas não intencionais por parte dos paulistas ("Nossa, que coisa de baiano") e a pobreza momentânea. Tiveram de morar em um pequeno apartamento somente com o dinheiro ganho por João Carlos já que todas as reservas feitas por Daniela, que juntava bastante dinheiro lembrando das palavras ditas por seus pais, estavam aplicadas na construção de uma escola particular de Educação Infantil nas imediações do Jardim São Paulo. Quando a pequena escola ganhou notoriedade pela região, graças aos imensos esforços da dona para que o ensino fosse o melhor, a vida começou a melhorar, seu marido terminou a faculdade e as coisas melhoraram ainda mais. Sua pequena escola de educação infantil cresceu tanto que virou o Instituto Daniela araújo, até que com 65 anos retorna a Ilhéus para adotar uma criança (sua esterilidade e estabilidade financeira ajudaram no processo). Um garoto de quinze anos se mudou com ela para São Paulo e recebeu a melhor educação que eles puderam dar. Nunca houve pessoa tão grata quanto Pedro pelo amor que Daniela, uma senhora de cabelos já brancos, e João Carlos, também grisalho, o deram. Pedro então se formou em medicina e cuidou de seu pai na reta final. Logo seu marido morreu, e Daniela chorou durante 13 dias e 12 noites, mas ficou feliz pois acreditava na graça de Deus e que João estava na sua companhia. E, um dia depois de fazer as sua grande festa de 95 anos, na qual dançou como se fosse uma garotinha, os anjos vieram lhe buscar em seus sonhos. Suas últimas palavras foram "Como fui feliz". E foi mesmo.

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Não sei dizer se o que escrevi está bom ou não, só sei que queria uma narrador que conversasse pelo menos um pouco com o leitor, uma história de um parágrafo e uma sucessão de fatos tristes e felizes que representassem uma vida boa. Se eu puder ser um pouquinho como Daniela já estarei feliz. Peço perdão por qualquer erro de português ou concordância, o texto ainda não foi revisado. Agradeço pela compreensão.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Quem diria?

(Observação: Este pedaço da minha história foi feito para ser escutado com a música "Chasing Pavements" da brilhante Adele. Pelo menos foi assim que eu o escrevi, ao som de sua linda voz e embargado pelo seu sentimento.)
só apertar play e esperar

Quem diria?

Pensei, pensei e pensei. Poderia simplesmente segui-la até o fim do mundo. Poderia largar as coisas que tinha pela metade. Podia mantê-las incompletas. Em um passado tão distante que não me lembraria de tê-lo feito. Poderia abandonar os pequenos pedaços de meu coração que deixei nas mão das pessoas importantes para mim. Poderia muito bem deixá-los de lado. Poderia?
Na verdade, não pude. Não fui com ela. Continuei, mesmo que sofrendo, mesmo que sozinho, mesmo que perdido, eu continuei. Permaneci lutando contra tudo e todos. Irei completar tudo aquilo que comecei. Começarei novos projetos. E os terminarei também. Eu não vou desistir mesmo que a dúvida permaneça em minha cabeça. Eu vou remexer em tudo até embaraçar meus pensamentos, e depois desembaraça-los. Mas eu farei tudo aqui. Perto de tudo e todos. Menos dela.
Tenho muitas saudades, nos vemos de vez em quando, nos falamos sempre. Já chorei muito, já me despedacei o suficiente. Hora de erguer a cabeça. Hora de seguir em frente. Não sei onde, mas encontrei forças para me forçar a dar mais um passo a frente. Não sentei em nenhum banco de madeira, não cortei caminho pela grama. Caminhei sobre as pedras me apoiando nas pessoas que estão comigo. Nos meus grandes mestres.
E tenho caminhado. Quem diria? Eu pelo menos sempre duvidei de mim mesmo.
Quem diria? Eu consegui dar mais um passo.
E pretendo continuar andando.